Daniel Helene | textos | paraty em foco 2007

Saí da mesa redonda do Leo Divendal e do Cássio Vasconcelos com alguma pressa para empacotar as coisas, voltar para São Paulo e dar conta dos trabalhos para o início da semana. Caminhei da Casa de Cultura de Paraty até a Central de Produção do evento, com um sorriso estampado na cara, depois de me despedir de novos e velhos amigos. Agradeci ao pessoal da produção. Dei meia volta e fui até o Bar do Lúcio, pagar a porcentagem que cabia ao bar sobre a foto vendida no evento. Vi aquela minha exposição uma última vez e me lembrei da primeira vez que pisei ali, com aquelas fotos na parede. Me lembrei de ter ficado instantaneamente emocionado. Me despedi do Lúcio, paguei-lhe os noventa reais. Olhei para a foto que fora vendida e me lembrei de quando a bati, lá em Afuá, na Ilha de Marajó. Me lembrei das pessoas que tinha conhecido naquela viagem, especialmente do Manoel Nazaré. E me lembrei também do menino “que estava correndo atrás do saci” e cujo nome eu não tive a chance de perguntar. Saí daquele espaço com um nó já começando a apertar na garganta. Fui caminhando até o carro e me lembrando de todas as pessoas com as quais convivi em Paraty – aquelas que eu não conhecia ainda e aquelas que eu descobri ainda mais um pouquinho. Esse nó foi se transformando numa verdadeira atadura e quando eu entrei no carro acho que me permiti começar a chorar. Um choro duradouro que era também criançal. Passar na pousada, desabafar lágrimas sobre a Si, recolher as malas, colocar no carro, pagar a conta. Chorei, emocionado com tudo isso que eu tinha vivido, com tudo isso que agora é meu, desde Paraty até mais ou menos a entrada para Trindade. E era o choro dum menino. Um menino como aquele da foto que ecoava na fala do Leo, minutos antes: com medo e ao mesmo tempo curioso. Foi assim a minha história com o Paraty Em Foco e é um pouco assim também a minha história com a fotografia. Nessa história eu descubro que vou, apesar dum medo que às vezes me faz achar que não deveria estar indo. Que capacidade tem o Leo de falar das coisas mais simples da experiência tornando-as as maiores pedras angulares da vida de qualquer um. Saí daquela mesa-redonda, impressionado, sabendo que eu tinha ouvido do Leo o que há de mais simples e o que há de mais profundo não só no fotografar, não só no ser artista da imagem, mas no viver mesmo. No viver-humano. Esse Paraty Em Foco tem muitas repercussões. Algumas são políticas, outras sociais, econômicas. Mas há um conjunto enorme de pequenas repercussões pessoais, íntimas, que não poderão nunca ser medidas. Ficamos todos quatro ou cinco dias mais velhos. Meu carro ficou 680 quilômetros mais rodado. E daí? Se desse para medir uma experiência dessas com isso… Minha sensação íntima com relação a toda essa experiência é de que eu havia me religado com alguma coisa muito minha no momento em que pisei no Bar do Lúcio com a exposição montada. A sensação na volta, é que fica um pedaço lá também. E ficará para sempre: nos perdemos uns nos outros, na medida em que fomos nos encontrando. Adentramos a floresta densa procurando o saci. Encontramos, como disse Pierre Devin, as melhores perguntas. Interessante isso: fomos nos perdendo uns nos outros e ao mesmo tempo ficando mais inteiros.

Daniel Helene